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22 Set 2021
Faixa 20: Ximena Garrido-Lecca
Ximena Garrido-Lecca, <i>Insurgencias botánicas: Phaseolus Lunatus</i> [Insurgências botânicas: Phaseolus Lunatus], 2017/2020. Instalação: estrutura hidropônica e plantas da espécie Phaseolus Lunatus; caixa de MDF com sementes de fava; cerâmica; pintura acrílica sobre parede, dimensões variáveis. © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Ximena Garrido-Lecca, Insurgencias botánicas: Phaseolus Lunatus [Insurgências botânicas: Phaseolus Lunatus], 2017/2020. Instalação: estrutura hidropônica e plantas da espécie Phaseolus Lunatus; caixa de MDF com sementes de fava; cerâmica; pintura acrílica sobre parede, dimensões variáveis. © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo

bienal · 19 - Ximena Garrido-Lecca

Quase no final de nosso percurso pela Bienal, nos deparamos com uma grande plantação de um tipo de feijão em uma estrutura hidropônica. É a instalação "Insurgências botânicas: Phaseolus Lunatus”, obra de 2017 da peruana Ximena Garrido-Lecca.

Muitos dos trabalhos da artista partem do complexo imaginário de sua terra natal, que é marcado pelo choque entre a milenar cultura andina e as violências, particularidades e contradições introduzidas pelos processos de colonização.

No caso de "Insurgências botânicas", a ideia para a obra surgiu quando ela visitou as ruínas de uma cidade construída por volta de 200 a.C. por uma civilização ainda mais antiga que a Inca. Lá foram encontradas sementes da espécie Phaseolus Lunatus, um tipo de feijão branco com manchas pretas que todos achavam que já não existia mais. 

Pesquisando sobre a planta, a artista chegou até uma cultura peruana pré-hispânica ainda mais antiga que a Inca, a Moche, e dois aspectos de sua história chamaram sua atenção. O primeiro é que existe uma teoria que as manchas pretas presentes nas sementes do feijão constituíam os signos de uma escrita ideogramática desse povo. O segundo, é que essa cultura é conhecida por ter desenvolvido complexos sistemas de irrigação.

Por isso, em sua instalação, Garrido-Lecca reativa essa história simbolicamente. A obra é composta por uma estrutura de madeira, semelhante a uma arquibancada com três lados. Sobre esta grande estrutura com mais de 8 metros de extensão e cerca de 2 metros de altura estão grossos canos de barro com orifícios de onde saem as folhas verdes bem vivas das Phaseolus lunatus. Em cada uma das aberturas há um fino fio de náilon que se prende em uma estrutura quadrada que cobre toda a instalação. Os ramos da planta crescem e vão subindo por esses fios como uma trepadeira, encontrando-se com a estrutura disposta acima delas. Desde a base da arquibancada, próxima ao chão, até a parte mais alta dela, são doze fileiras de canos com dezenas de aberturas em intervalos simétricos e regulares. Esses canos servem como sistema de irrigação para o crescimento das plantas. 

Além disso, a instalação contém mais dois elementos: uma mesa em que são exibidas reproduções das favas em cerâmica e uma parede em que essas mesmas favas estão representadas. A artista imaginou como essa escrita Moche poderia funcionar e traduziu, nessas duas peças, um capítulo do livro "A extirpação da idolatria no Peru", uma espécie de manual da colônia, datado de 1621, sobre como erradicar os costumes indígenas.

Essa obra está no Pavilhão Ciccillo Matarazzo desde fevereiro de 2020, quando a programação expositiva da 34ª Bienal foi iniciada, justamente com uma individual de Ximena Garrido-Lecca. Em novembro do mesmo ano, ela integrou a exposição coletiva Vento, segunda etapa de construção pública da 34ª Bienal. 

Com sua ênfase no processo ininterrupto de transformação de tudo que é vivo (de uma planta a uma cultura), esta obra simboliza a estratégia curatorial de conceber a Bienal como processo e não como algo fixo ou cristalizado. Nesta sua última apresentação, ela enfatiza que nada permanece idêntico: nem a obra de arte, nem quem olha para ela, nem o mundo ao redor.